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MERCEDES APOSTA NA REPARAÇÃO FÁCIL, BMW OBRIGA A IR À OFICINA

Turbo Online

2026-01-06 22:04:51

Enquanto a Mercedes-Benz redesenha componentes para facilitar reparações e reduzir emissões, a BMW segue o caminho oposto, com parafusos proprietários que afastam proprietários e oficinas independentes. Duas visões distintas sobre sustentabilidade, design e controlo pós-venda. Duas estratégias opostas no futuro do automóvel A indústria automóvel enfrenta pressão crescente para reduzir o impacto ambiental e prolongar a vida útil dos veículos. Neste contexto, Mercedes-Benz e BMW apresentam abordagens radicalmente diferentes: uma aposta na simplicidade e na economia circular; a outra reforça o controlo técnico e estético através de soluções proprietárias. Mercedes-Benz: sustentabilidade começa no detalhe No âmbito da iniciativa Tomorrow XX, a Mercedes-Benz está a reconsiderar soluções básicas de engenharia para tornar os seus carros mais sustentáveis e fáceis de reparar. Um exemplo concreto é a substituição de colas por parafusos nos faróis. Atualmente, muitos faróis são colados, o que obriga à substituição completa do conjunto quando apenas uma peça - como a lente - está danificada. Ao recorrer a parafusos, os componentes podem ser desmontados, reparados ou substituídos individualmente, prolongando a vida útil do farol e reduzindo desperdício. Segundo a marca, esta abordagem permite reduzir a produção de resíduos e a necessidade de fabricar novos componentes, contribuindo também para a diminuição das emissões de carbono associadas aos processos produtivos, ao mesmo tempo que torna as reparações mais simples e potencialmente mais económicas para os proprietários. Esta filosofia enquadra-se no conceito de economia circular, onde veículos novos incorporam cada vez mais materiais recuperados de modelos antigos. A Mercedes junta-se assim a outras marcas, como a BMW no passado conceptual, que reconheceram que o impacto climático dos automóveis vai muito além das emissões de escape, incluindo extração de matérias-primas e processos industriais. BMW: design exclusivo, acesso restrito A BMW, conhecida por seguir caminhos próprios, apresentou recentemente uma patente de parafuso com cabeça em forma do logótipo da marca. Em vez de uma cabeça Torx, hexagonal ou semelhante, o parafuso exige uma ferramenta específica e exclusiva, impossível de substituir por utensílios comuns. Do ponto de vista do design, a solução é coerente com a conhecida obsessão estética da marca, ao apresentar um visual distintivo e imediatamente reconhecível, pensado para se integrar em áreas visíveis do interior e reforçar a identidade BMW mesmo nos elementos mais pequenos. No entanto, a própria patente deixa claro o objectivo funcional: impedir o aperto ou desaperto por pessoas não autorizadas. Na prática, isso significa limitar intervenções a concessionários ou oficinas com ferramentas oficiais, afastando proprietários e mecânicos independentes. Consequências práticas para proprietários e oficinas Embora estes parafusos estejam, para já, pensados para aplicações estruturais ou semi-estruturais, como as fixações dos bancos, a BMW admite várias variações do design que podem alargar significativamente o seu uso, o que levanta preocupações concretas, já que reparações simples poderão passar a exigir visitas obrigatórias ao concessionário, as oficinas independentes enfrentarão novos custos e obstáculos, e a manutenção DIY tornar-se-á cada vez menos viável. Esta estratégia contrasta fortemente com o discurso crescente do “direito à reparação”, já debatido na União Europeia, que defende produtos mais acessíveis à manutenção e à reparação fora dos canais oficiais. Dois caminhos, duas filosofias A Mercedes-Benz aposta numa engenharia discreta, quase invisível, onde um simples parafuso pode ter impacto ambiental significativo. A BMW, por sua vez, privilegia controlo, exclusividade e design, mesmo que isso complique a vida a quem quer manter o carro fora da rede oficial. Para já, o parafuso da BMW existe apenas no papel - e nem todas as patentes chegam à produção. Mas o contraste é claro: uma marca olha para a sustentabilidade e reparabilidade; a outra reforça barreiras num automóvel cada vez menos “do dono”. Fernando Marques