QUE EUROPA EM 2026?
2026-01-02 22:10:16

Não sou otimista quanto ao futuro próximo da Europa. ã medida que nos aproximamos de 2026, o continente parece avançar não por estratégia, mas por inércia e, pior ainda, apesar de repetidamente avisado. A decadência europeiajá não é um exercício retórico nem um presságio distante: manifesta-se de forma concreta na perda acelerada de capacidade industrial, tecnológica e estratégica. Comecemos pela transição energética, frequentemente apresentada como a grande aposta europeia. O colapso da Northvolt, projeto-âncora para a produção de baterias para veículos elétricos em solo europeui, simboliza um fracasso que vai muito além de uma empresa mal gerida. Representa a incapacidade estrutural da Europa para competir, em escala e preço, com a ãsia. O plano europeu para as baterias praticamente morreu antes de atingir maturidade. O mesmo destino parece aguardar outros projetos financiados com fundos europeus. Um ambicioso empreendimento francês para a produção de eletrolisadores aproxima-se da insolvência, esmagado por concorrentes asiáticos que produzem mais barato, mais rápido e em maior escala. A retórica da “autonomia estratégica” choca frontalmente com a realidade dos mercados globais e perde. Na Holanda, a Ebusco, empresa que pretendia afirmar a mobilidade elétrica europeia através da pro dução de autocarros e infraestruturas de carregamento, tornou-se outro caso exemplar. Atrasos sucessivos levaram clientes a cancelar encomendas, agravando dificuldades financeiras que hoje abrem caminho à entrada de capitais chineses, precisamente de produtores de baterias. O resultado é perverso: a Europa utiliza autocarros elétricos chineses, equipados com tecnologia que pode ser remotamente desativada. A dependência tecnológica atinge aqui um grau que roça o absurdo , e torna a ideia de soberania industrial quase caricatural. Este padrão não é novo. A Europa já perdeu, de forma pra-ticamente total, a indústria dos painéis solares. Cerca de 90% da produção mundial encontra-se hoje na China, que domina todas as etapas críticas da cadeia: desde o polissilício aos wafers (dos quais produz cerca de 98%), passando pelas células e pela montagem final. Trata-se de uma derrota industrial de proporções históricas, ainda insuficientemente compreendida pela opinião pública europeia. Talvez ainda mais reveladora seja a incapacidade europeia de explorar os seus próprios recursos estratégicos. A Gronelândia é um caso paradigmático. Enquanto o debate mediático) se entretém com superficialidades, empresas americanas , como a pouco conhecida Critical Metals Corp , avançam discretamente com projetos de exploração de terras raras no sul da ilha, onde se localizam alguns dos maiores depósitos mundiais. Capital americano, extração em território europeu, refinação fora da Europa. O continente assiste, passivo, à externalização das suas próprias riquezas. Estes são apenas alguns exemplos. Muitos outros poderiam ser enumerados. Mas o padrão é claro:a a Europa consome tecnologia, não a produz; financia projetos, mas não os sustenta; proclama ambições estratégicas, mas abdica da execução. Queixamo-nos, com razão, da degradação das condições de vida. No entanto, temo que o essencial ainda esteja por vir. Porque uma sociedade que perde a sua base produtiva perde, inevitavelmente, a sua autonomia n e, a prazo, a sua prosperidade. . CRISTIANO SANTOS