VALORIZAR OU PERDER: O DILEMA PORTUGUÊS
2026-01-01 06:00:04

O património é um ativo estratégico que já possuímos. Na viragem do ano, multiplicam-se balanços e prioridades. Fala-se de crescimento e competitividade, mas continua a ignorar-se um dos poucos ativos estratégicos que o país já possui: o seu património construído. Em Portugal, fábricas abandonadas, estações desativadas ou fortalezas esquecidas continuam a ser tratadas como problemas herdados, não como capital adquirido. Persistimos numa visão errada: conservar é imobilizar. Classificar é salvar. Não é. O património não sobrevive por decreto nem por boas intenções. Sobrevive quando tem uso, quando participa na economia, na cultura e na vida das comunidades. Um ativo que não é gerido degrada-se, mesmo quando as paredes ainda estão de pé. Dizemos que “o património é de todos”, mas essa ideia perde sentido quando os edifícios ficam anos à espera de decisão política. Valorizar para conservar não é retórica cultural: é gestão estratégica do que já foi construído, pago e herdado. Há sinais de mudança. O Plano de Recuperação e Resiliência mobilizou cerca de 192,9 milhões de euros para a reabilitação de museus, monumentos e palácios públicos, apostando, pela primeira vez de forma clara, na devolução de uso. Exemplos como a Fortaleza de Peniche, hoje Museu Nacional da Resistência e da Liberdade e distinguida com o prémio Europa Nostra 2025, mostram que preservar não é congelar, é tornar relevante. Também o turismo cultural confirma esta lógica. Em 2023, Portugal registou 26,5 milhões de chegadas de não-residentes. Quem nos visita procura mais do que praias: procura identidade e narrativa. Esse interesse pode sustentar a conservação, se houver visão estratégica e ligação às comunidades. Mas os riscos mantêm-se. A especulação imobiliária continua a reduzir património a metros quadrados, ignorando o seu valor coletivo. Se queremos proteger estes ativos, são necessários instrumentos claros: incentivos à reabilitação com uso público, parcerias locais e concessões que valorizem impacto social, não apenas retorno imediato. Conservar património é, em última análise, uma decisão política. À entrada de um novo ano, o país tem de escolher: continuar a tratar o património como um custo a adiar ou assumi-lo como um ativo estratégico, capaz de gerar valor cultural, económico e social. Valorizar é decidir usar. Tudo o resto é adiar a perda. Ana Vieira Martins Universidade Portucalense Ana Vieira Martins