OPINIÃO - EUROPA EM ESTADO DE CHOQUE
2025-12-31 22:07:11

0 pior momento para se tecerem comentários sobre o que “ está para vir” é o tempo que medeia entre essa avaliação e o anúncio de medidas que vão ditar o futuro. Refiro-me ao facto de poder ter acontecido, a 16 de dezembro, o anúncio de pacote para a “salvação” do setor automóvel europeu. Mas mesmo sem saber a fórmula milagrosa que a União Europeia vai adotar para tentar aumentar os volumes de vendas, subir a taxa de utilização da capacidade instalada das fábricas, salvar empregos e não fazer (muito) má figura junto da fação pró-ambientalista que já toma a “ morte ao motor de combustão em 2035” como um dado adquirido, há considerações que podem ser feitas. O tema é incontornável na transição do ano e os gritos de alerta dos senhores desta indústria e dos políticos aumentam de volume. Raio-X rápido da situação: o mercado automóvel europeu é o yúnico à escala planetária que não recuperou para os níveis pre-covid (muito longe disso) o volume médio de vendas entre 2015 e 2019 rondava os 14 milhões quando atualmente não passa dos 11. O segmento A (dos carros citadinos com menos de quatro metros) está moribundo (os seus preços foram inflacionados por terem sido forçados a incluir cara tecnologia “descontaminante” e da dezena e meia de modelos há 10 anos, alguns dedos de uma mão chegam para contar os que sobrevivem hoje), as marcas chinesas continuam a “roubar” quota de mercado às europeias a um ritmo galopante e o aumento do preço dos automóveis (muito por força do custo ainda incomportável da propulsão elétrica) está a tornar inviável a transição pela esmagadora maioria das famílias europeias. O setor dos componentes não está melhor, com as peças chinesas a tornarem-se dominantes pelo fator preço e não será o slogan protecionista “compre europeu” que irá mudar essa tendência. Para o primeiro dos males, a criação de um segmento eCar parece adequada. Um carro muito compacto, com plataformas comuns e chassis comuns e depois com cada marca a tratar por si da parte da motorização/baterias e da diferenciação pelo design, marketing, etc. Ao fim e ao cabo, um pouco como nasceu a Formula E. Já vi dois projetos muito interessantes de veículos para esta categoria (entre os quadriciclos e os automóveis mais elementares), com preços abaixo de 15 000 euros e ambos muito promissores. Prescindindo das tecnologias/equipamentos dispensáveis, mas assegurando um mínimo de segurança ativa e passiva, podem dinamizar a indústria e chegar a uma audiência mais vasta, mesmo sabendo-se que na parte das finanças o seu contributo será sempre limitado pelas reduzidas margens de lucro que proporcionam. A questão “chinesa” é mais complexa, porque é menos controlável. Aplicaram-se tarifas sobre os seus modelos elétricos, há um ano, e as marcas chinesas reajustaram a sua oferta, direcionada para os híbridos, tendo por isso podido aumentar as suas vendas na Europa em 93% em 2025 (700 000 carros vs 408 000 no ano anterior). O que até lhes deu muito jeito porque o seu mercado doméstico omaior do mundo) está estagnado, as fábricas a produzir a metade da capacidade instalada (e daí não estarmos ainda inundados de fábricas chinesas) e a guerra instalada de preços está a ameaçar a sustentabilidade da maioria das marcas (menos de 10% terão tido lucros este ano). Taxar também os carros híbridos e com extensores de autonomia com base no mesmo racional de apoio excessivo por parte do estado chinês será admissível? Por último, o suavizar da pena de morte do motor de combustão não parece ter alternativa, restando saber o seu alcance. Grau 1: um caminho mais tolerante nos anos anteriores a 2035 permitiria não perder a face perante um eleitorado sensível aos assuntos da poluição ambiental; Grau 2: grau 1 mais autorização para híbridos, plug-in híbridos e extensores de autonomia sobreviverem após 2035, com níveis de emissões/consumos forçosa e efetivamente muito baixos, como muleta para a indústria e o mercado; Grau 3: os dois anteriores juntos e ainda o adiamento da aplicação da “sentença de morte” dos motores de combustão para 2040. Quando o leitor passar os olhos por estas linhas talvez já se saiba o caminho escolhido para salvar a indústria automóvel europeia e milhões de empregos. Pela minha parte, é muito provável que perceba que é, efetivamente, muito mais fácil acertar no totobola à segunda-feira... JOAOUIM OLIVEIRA JURADO DO "CAR OF THE YEAR” NA EUROPA E DO INTERNATIONAL ENGINE OF THE YEAR” SEM “PACOTE DE SALVAçâO”, A INDúSTRIA AUTOMOVEL EUROPEIA DIFICILMENTE PODERâ/IA SOBREVIVER COMO A CONHECEMOS JOAQUIM OLIVEIRA