REABILITAR, MODERNIZAR E DEIXAR INTACTA A ESSÊNCIA HISTÓRICA
2025-12-30 13:45:05

A reabilitação do Teatro Nacional de São Carlos, a cargo da CARI, é uma das primeiras obras em edifício histórico a usar uma representação digital completa através do BIM, alimentada por laser scan e fotogrametria. Um trabalho complexo onde o uso da tecnologia é usado simultaneamente para preservar um edifício histórico, adaptando aos códigos actuais. Mais do que uma obra de engenharia, esta intervenção representa um compromisso profundo com a “memória arquitectónica e cultural” do país A CARI está a executar a reabilitação e modernização do Teatro Nacional de São Carlos, um dos mais importantes monumentos nacionais. A obra, com um investimento próximo de 17 milhões de euros e conclusão prevista para meados de 2026, integra a 2.ª fase do projecto promovido pelo Organismo de Produção Artística (OPART) e financiado pelo PRR, com projecto dos arquitectos João Mendes Ribeiro e Atelier 15. O projecto de reabilitação do único teatro de ópera em Portugal com actividade contínua, visa preservar a memória arquitectónica e cultural, reforçar a estrutura para padrões sísmicos modernos e actualizar as infraestruturas técnicas, garantindo que este ícone cultural continue a ser palco da criação artística em Lisboa. Mas o que nos faz destacar esta obra de reabilitação é o uso das técnicas de restauro de alta precisão, incluindo um gémeo digital em 3D. A empresa de Guimarães alia engenharia e sensibilidade patrimonial num dos projectos naquele que é um dos projectos “mais exigentes” do seu portefólio, como nos contou Rui Alves, director de produção da CARI. “É também uma das primeiras obras do sector em que trabalhamos com uma representação digital completa através de BIM, alimentada por laser scan e fotogrametria, o que eleva muito o rigor exigido”, explica Rui Alves ao ReCONSTRUIR. O desafio deste projecto reside, assim, na necessidade de conciliar a preservação de um edifício histórico com mais de dois séculos de existência, a modernização técnica e a implementação de reforços estruturais e sísmicos, tudo num contexto urbano sensível. Os espaços mais emblemáticos - incluindo a Sala Principal, o Salão Nobre, a Tribuna Real, os camarotes, o palco, a teia e o fosso da orquestra - exigem técnicas de restauro altamente especializadas, capazes de preservar a autenticidade e o valor patrimonial do teatro. O Teatro Nacional de São Carlos está inserido na malha pombalina de Lisboa e integra três edifícios interligados e espaços de enorme sensibilidade artística, como a Sala Principal, a Tribuna Real ou o Salão Nobre. “Zonas com talha, estuques, madeiras e pinturas que exigem técnicas muito específicas de restauro. Também as estruturas de madeira do palco, da teia e do fosso, já com desgaste acumulado, exigem um grande cuidado para preservar a autenticidade mantendo a segurança”, sublinha o director de Produção. O compromisso entre a integridade histórica e a segurança da estrutura Esta é uma das questões mais desafiantes do projecto: reforçar a estrutura para os padrões actuais, sem comprometer a integridade histórica do edifício do século XVIII , sem falar das condicionantes logísticas dada a localização do edifício em pleno centro histórico de Lisboa. “A estratégia passou por reforçar onde o edifício o permite e preservar onde o valor patrimonial é maior”, começa por explicar Rui Alves. O plano passou então por concentrar os principais reforços estruturais e sísmicos na zona tardoz e nos edifícios anexos, áreas com menor sensibilidade histórica e onde é possível introduzir novos elementos resistentes sem impacto visual. “Nas zonas nobres, como a Sala Principal, o Foyer ou a Tribuna Real, optou-se por uma intervenção cirúrgica e mínima, privilegiando técnicas reversíveis, reforços discretos e integrados, reaproveitamento de furações e caminhos técnicos existentes. Em síntese, reforçámos a estabilidade global do conjunto sem tocar na essência histórica que faz do São Carlos um monumento único”, sublinha o director de produção da CARI. No que se refere ao reforço sísmico, o caminho passou pela “criação de novos elementos resistentes nas zonas menos sensíveis, pelo reforço ou substituição de lajes degradadas para funcionarem como “diafragma” e pela melhoria das ligações entre paredes e pavimentos. Realça-se também o reforço de coberturas e estruturas do palco/teia”, enumera o responsável. “Tivemos sempre a preocupação de garantir a compatibilidade com os materiais históricos pré-existentes e a mínima intrusão nas zonas patrimoniais”, acrescenta. A tecnologia ao serviço da reabilitação e preservação histórica Um dos aspectos mais inovadores desta intervenção é o uso intensivo de tecnologia digital e BIM (Building Information Modelling). Desde o início do projecto, a CARI aplicou uma metodologia que combina BIM com “laser scan e fotogrametria”, criando um gémeo digital tridimensional do teatro. Este modelo não se limita a representar a geometria do edifício: ele integra informação sobre estruturas, instalações técnicas e elementos de restauro, permitindo uma visão global e precisa do estado real do edifício. Cada deformação histórica, cada irregularidade construtiva e cada detalhe patrimonial foi capturado com precisão milimétrica, garantindo que qualquer intervenção seja previamente estudada e validada digitalmente antes de ser aplicada no espaço físico. “A representação digital através de BIM integra arquitectura, estruturas, instalações e conservação e restauro, permitindo conhecer a geometria real do edifício, prever conflitos entre redes técnicas e elementos históricos, bem como planear faseamentos e acessos com maior precisão. Conseguimos, assim, tomar decisões com base em informação rigorosa e visual, reduzindo a incerteza em obra”, sublinha Rui Alves. Mais do que uma “opção” o uso do BIM é visto como “uma necessidade”, justificada pelos “três corpos distintos, grande densidade de instalações e condicionantes patrimoniais, seria arriscado trabalhar apenas com desenhos de 2 dimensões. O BIM, neste projecto, permite fazer uma correcta gestão de risco, precisão e rastreabilidade, melhora a coordenação com as equipas de conservação e restauro, assegurando que cada decisão respeita o edifício histórico”. “Acresce a actualização do modelo digital ao longo da obra, para que sirva também o futuro teatro, muito para lá do fim desta empreitada, quer ao nível de registo do que é realizado, quer em termos de manutenção contínua do edifício”. Comparativamente a uma obra nova , onde o BIM parte de uma geometria perfeita e controlado , no São Carlos o modelo foi construído tendo por base as “irregularidades, deformações e técnicas construtivas antigas, rigorosamente captados através de laser scan e nuvens de pontos”. “O modelo teve de incorporar não apenas a forma real do edifício, mas também patologias, materiais originais, áreas de restauro e um faseamento altamente complexo. O BIM ultrapassa aqui a sua função habitual. Não é apenas uma ferramenta para construir - é também um instrumento para conhecer, conservar, documentar e salvaguardar um património único para as futuras gerações”, considera o especialista. Um trabalho que não foi isento de desafios: “num edifício histórico como o São Carlos, muitos elementos apresentam documentação incompleta, o que obrigou a realização de sondagens, inspecções e validações contínuas em obra para garantir que o modelo BIM corresponde fielmente ao existente. A isto juntam-se desafios tipicamente associados ao património, como a representação de paredes não ortogonais, vigas empenadas e geometrias pombalinas, que exigem uma modelação muito mais cuidadosa. Foi igualmente necessário definir níveis de detalhe equilibrados, suficientemente rigorosos para apoiar o projecto e a obra, mas sem tornar o modelo digital excessivamente pesado ou difícil de gerir. Tudo isto teve ainda de ser compatibilizado com as restrições próprias do restauro, que impõem mínima intrusão, reversibilidade das soluções e plena preservação da autenticidade histórica”. A digitalização trouxe ganhos em tempo, custo ou redução de erro. “Entre os ganhos mais evidentes está a redução de erros por detecção antecipada de conflitos entre instalações e elementos históricos. Também ao nível do planeamento, por exemplo, foi possível realizar um planeamento muito mais preciso de utilização de andaimes e acessos a áreas nobres e respectivos faseamentos. Ao nível das medições e quantidades foi essencial para obtermos medições mais rigorosas ao nível das instalações, mas também em demolições e reforços estruturais. Em termos práticos: o que se resolve no modelo digital, não se corrige no edifício, e isso representa poupança real”, considera Rui Alves. Um trabalho em curso O projecto evidencia que, num edifício histórico de grande importância, a tecnologia não é apenas uma ferramenta auxiliar, mas um pilar central da intervenção. Intervenção essa que terminará em 2026, ainda que o percurso até à sua conclusão envolva várias fases particularmente críticas. Desde logo, “a conclusão dos reforços estruturais e sísmicos, nas coberturas e nas fachadas, etapas que condicionam todas as operações seguintes e exigem grande cuidado, devido à sua interacção directa com elementos patrimoniais”. Segue-se a integração das novas infraestruturas técnicas no edifício principal, “um processo que requer precisão absoluta, dado que os negativos e atravessamentos devem respeitar rigorosamente os paramentos históricos e as suas limitações de intervenção. Em paralelo decorre a conservação e restauro das áreas mais emblemáticas - foyer, salão nobre, corredores, tribuna real, camarotes, palco, teia e fosso - onde a complexidade e sensibilidade dos trabalhos elevam o risco de retrabalho caso a coordenação não seja perfeita”. Por fim, a obra culmina com uma fase de ensaios, afinações e testes em ambiente real, essenciais para validar a segurança, a acústica, o conforto e o funcionamento integrado de todos os sistemas.