REPORTAGEM NA PRÉ-CAMPANHA PRESIDENCIAL - O PROFISSIONAL, O “SEM-AMARRAS”, O MERGULHADOR E O MINI-TRUMP
2025-11-22 22:04:05

O profissional, o mergulhador, o “sem amarras” e o mini-Trump A dois meses das presidenciais, acompanhámos alguns candidatos que já andam pelo país. Não é só o avanço das mais recentes sondagens que Marques Mendes leva, mas é o de estar em campo há 50 anos Reportagem Na quinta-feira, Marques Mendes entra na cantina universitária e cumprimenta os estudantes um a um. O dia começou bem: pela primeira vez, uma sondagem (a da Intercampus para a CNN) coloca-o em primeiro lugar, atrás de quem até aqui tinha liderado o pelotão dos candidatos, Henrique Gouveia e Melo. Marques Mendes anda nisto desde os 18 anos. O mantra da sua candidatura é “experiência política”. Só se arranja experiência política depois de muito chão pisado e toda essa experiência se vê na forma desembaraçada e profissional com que Marques Mendes vive a sua campanha. Estamos em Coimbra, na universidade. O terreno é Destaque Presidenciais na estrada simpático: o vice-reitor João Nuno Calvão, do PSD, é o mandatário distrital e o reitor Amílcar Falcão, independente, também apoia. Não se sabe em quem irão votar os estudantes, mas tratam Marques Mendes com afabilidade. Muitos pedem para que lhes tirem fotografias com o candidato. Jaiminho. Luisinho. Luís Marques Mendes e o histórico Jaime Marta Soares tratam-se pelos diminutivos. Marta Soares presidiu longos anos à Câmara de Vila Nova de Poiares, foi deputado e comandante operacional dos bombeiros (as televisões ouvem-no na época de incêndios) e está ali para apoiar o amigo Marques Mendes. Vários “notáveis” aparecem: o embaixador de Portugal em Berlim no tempo da troika, Luís Almeida Sampaio, que recentemente escreveu um livro sobre o seu tempo na capital da Alemanha prefaciado por Pedro Passos Coelho Diplomacia em Tempo de Troika , é um deles. No café da Associação Académica cheio de estudantes num dia de muito sol, Marques Mendes dá a volta a todas as mesas (como já tinha feito na cantina antes do almoço, onde comeu como se estivesse no Coelho da Rocha ou no Vela Latina, dois restaurantes de Lisboa fora do roteiro habitual de alimentações universitárias) e senta-se, a beber um “fino” com uma roda de estudantes. Já antes tinha cumprido uma tradição coimbrã, ao ser fotografado com uma capa de estudante. Também prometeu ao coordenador-geral da Queima das Fitas que, se for eleito Presidente, estará presente nas festas da universidade a 30 de Maio. Afinal, também é um antigo estudante de Coimbra. Há 50 anos, subiu as escadas monumentais. Os estudantes fazem perguntas políticas e o candidato tem aqui oportunidade de entrar mais na campanha “a sério”. Já antes tinha respondido a algumas: Porque lançou a sua candidatura? Acredito que a experiência que tenho pode ser útil ao país. Mendes lembra que o Governo é minoritário e que o seu objectivo em Belém é “evitar crises políticas” e “ajudar a resolver os problemas do país”. Perguntam-lhe sobre se a ligação ao PSD vai prejudicar a imparcialidade do Presidente. O assunto está na ordem do dia, já que é o principal argumento de Henrique Gouveia e Melo, que, até há pouco, liderava as sondagens para as presidenciais. Marques Mendes dá os exemplos de Mário Soares e Jorge Sampaio. “Sou igual a ele na parte dos partidos”, diz, afirmando que será independente. Na roda onde bebe o fino, insiste na missão “de evitar crises políticas” para que “este Governo ou qualquer outro” “tenha um mandato de quatro anos”. A “habitação”, para o candidato, é “o maior pesadelo do país”. Um estudante pergunta “se o problema não é a especulação imobiliária”. “Só se combate a especulação imobiliária se se tiver mais casas no mercado”, responde Marques Mendes. Um outro faz nova pergunta incómoda: a crise “não é consequência dos vistos gold ”? O candidato admite que “pode haver algum contributo”, mas para ele a questão maior é não existir confiança nos proprietários para pôr casas no mercado de arrendamento. Um outro estudante fala dos médicos tarefeiros. Aí, Marques Mendes desenvolve aquela que tem sido a maior crítica que tem feito ao Governo a saúde , lembrando que “está a ser normalizado as senhoras terem crianças nas ambulâncias”. “O que é que um Presidente deve fazer? Não é governar, mas tem de exigir resultados”, diz o candidato, pondo a tónica em que “este Governo está em funções há ano e meio” e ninguém sabe “qual é o caminho para a saúde”, nem sequer ele “conseguiu” e é uma pessoa “mais bem informada do que outras”. “Se eu tenho dificuldades em perceber É um problema político ou de comunicação? Ou não há solução? Um Presidente da República tem de colocar as questões com esta clareza.” A ministra da Saúde do Governo do seu partido não será poupada pelo candidato, como se vê. “Um Presidente não deve ser apoiante do Governo nem adversário do Governo”, diz. Marques Mendes defende que a estabilidade é importante e até existe “o Orçamento acabou de passar” , mas não descarta que para o ano as coisas já não corram da mesma maneira. “Como o Governo é minoritário, pode haver problemas de estabilidade daqui a um ano, no próximo Orçamento”, admite. O marinheiro que não perdeu as graças Henrique Gouveia e Melo está a estagiar no mundo da política ou em linguagem da Marinha, anda a fazer de recruta mergulhador. Mudou totalmente a imagem: o homem fardado que liderava a operação das vacinas não tem farda nem a famosa “voz de comando” que um dia chegou a dizer ser uma sua mais-valia. O registo militar que imprimiu à comunicação no tempo da covid-19 só se nota pela quantidade de vezes que se refere à sua actividade de uma vida “Nós, na Marinha...” É um facto que foi a “voz de comando” que atraiu os portugueses que fizeram dele uma “ rock star política”muitoanosantes da sua decisão de se candidatar a Presidente da República. Mas usar a “voz de comando” em contexto de campanha eleitoral seria impossível, sob pena de que as acusações que lhe fazem de ser autoritário e até de “pôr em causa a democracia”, como chegou a dizer Marques Mendes, se multiplicassem. Temos agora na rua um marinheiro capaz de navegar águas doces. Gouveia e Melo aprendeu depressa aquela actividade que é ter de meter conversa com estranhos e entrar em lojas sem precisar de comprar nada. Na segunda-feira, no Porto, onde se reuniu, e depois almoçou no Café Piolho, com dirigentes académicos, Gouveia e Melo atravessa as ruas e cumprimenta toda a gente que encontra nas esplanadas. Mesmo se não é recebido com euforia, insiste na mesma. Milton Nascimento escreveu uma canção, Os bailes da vida, que tem uns versos que são óptimas metáforas destes momentos: “Todo o artista tem de ir aonde o povo está/Se foi assim/ assim será.” Enquanto as redes sociais não extinguirem a campanha de rua, assim será. Em frente à Igreja do Carmo, Gouveia e Melo mete-se num tuk-tuk, a pedido do proprietário. Mais tarde, em Matosinhos, no CEiiA (Centro de Engenharia e Desenvolvimento), conduz um protótipo de um minicarro eléctrico, o BEN Be neutro, que vai para o mercado em 2023. Não foge às photo opportunities e está à vontade sem a farda a perguntar ao vendedor se as castanhas estão boas. Se Marques Mendes é recebido em Coimbra pelo reitor e vice-reitor da universidade, entre outros notáveis, Gouveia e Melo tem a esperá-lo Rui Rio, o mandatário nacional, e António Tavares, outro histórico do PSD também seu apoiante. Rui Rio quer ver Gouveia e Melo em Belém porque, depois de ter sido secretário-geral do PSD (quando Marcelo Rebelo de Sousa era líder do partido) e presidente (2018-2022), diz ser “o primeiro a reconhecer que na Presidência da República é preciso hoje uma pessoa equidistante dos interesses partidários”. Sem desta vez usar a metáfora do “lombo”, Gouveia e Melo declara aos estudantes que não será influenciado por ninguém: “As pessoas que me conhecem sabem. As pessoas novas que se aproximam de mim julgando que me podem influenciar terão uma desilusão muito forte.” Tal como Marques Mendes, é muito crítico da falta de rumo na saúde. “Eu sou um navegador da Marinha. Meto-me num navio e sei qual é o destino. Para onde querem ir? Querem acabar com o Serviço Nacional de Saúde para ser tudo privado? Ou não querem acabar com o SNS?”, pergunta, retoricamente, para concluir: “Quando não se sabe qual é o destino, é a desorganização total.” É, porém, muito mais duro que Marques Mendes e “começa a acreditar que há uma ideia verdadeira de acabar com o SNS para dar espaço à medicina privada”. Gouveia e Melo é contra: “Se acabar o SNS, vamos viver numa sociedade sem coesão social, uma sociedade de poucos muito ricos e de muitos muito pobres.” Depois de defender com ênfase o SNS “Onde é o porto de destino?” , acaba com uma espécie de “requerimento” sobre ideologia: “Agora não me digam que eu sou de esquerda por causa disso. Sou um ser humano. Tenho humanismo.” Gouveia e Melo não é de esquerda, mas tem como assessor político David Damião, que assessorou todos os governos PS de António Guterres para cá. O último cargo público de Damião foi trabalhar no gabinete de Augusto Santos Silva quando este era presidente da Assembleia da República. Hoje, o antigo jornalista da Rádio Renascença tem uma empresa privada. O congresso de Aveiro de Seguro A convenção de Aveiro, que decorreu no sábado passado, queria mimetizar o famoso Congresso da oposição democrática de Aveiro de 1969. No centro de congressos de Aveiro, centenas de participantes dividiram-se em vários painéis para discutir os “grandes temas” do país. O sábado foi um dia duro para o candidato apoiado pelo PS. Morrera o seu amigo Fernando Cabral, antigo governador civil da Guarda ex-deputado socialista. Mesmo assim, homenageando Fernando Gaspar e o outro antigo dirigente socialista que também tinha morrido, José Miguel Mesquita, António José Seguro fez um discurso que entusiasmou o auditório do Centro de Congressos de Aveiro. Das Caldas da Rainha, a terra onde vive o candidato, veio uma camioneta de apoiantes. Apareceu Alberto Martins, Francisco Assis, Ana Gomes, Filipe Neto Brandão, Álvaro Beleza, Jorge Strecht, mas não se viu ninguém da actual nomenclatura do PS nem da anterior (pedronunistas) e nem da antepassada (costistas). Se descontarmos o facto de Francisco Assis fazer parte do actual secretariado do PS, pode dizer-se que o PS dos líderes, dirigentes nacionais e barões deixou António José Seguro à sua sorte. O candidato está, efectivamente, “sem amarras”, como costuma definir-se. Os painéis da convenção tinham pessoas mais à esquerda e outras mais à direita. Tinham muitos socialistas as bases não faltaram em Aveiro. Susana Peralta, professora de Economia na Nova e colunista do PÚBLICO, estava lá, no flanco esquerdo, e afirma que António José Seguro “tem de dizer alguma coisa sobre a reforma laboral” (e logo a seguir António José Seguro disse). A professora universitária Sílvia Sousa pediu: “Os socialistas precisam que António José Seguro diga qualquer coisa de esquerda. O partido que apoia o candidato está à espera.” Ventura, o trumpezinho A semana de André Ventura incluiu um encontro com jovens na Universidade Lusíada, em Lisboa. É um terreno favorável ao candidato, já que o eleitorado jovem vota muito no Chega. “Há um momento em que uma geração que espero que seja a vossa tem de cortar com o modelo de governação que tivemos em Portugal”, apela Ventura. “Não é só o modelo de corrupção que temos que é evidente para todos”, mas também porque, diz Ventura, “ser de direita é crime, quase, é bullying permanente, é o és atrasado ” quando “os atrasados são eles, por isso é que provocaram o atraso que temos”. Ventura é o melhor a trabalhar as redes sociais, chega mais depressa ao eleitorado que hoje anda permanentemente online. Uma das mensagens da semana: “A esquerda é miserável em Portugal e no mundo inteiro. Adoravam o Ronaldo. Agora o homem encontrou-se com o Presidente Trump e, por isso, deve ser cancelado e desprezado.” Outra ideia foi falsificar uma imagem do Jornal de Notícias, que dava Seguro a vencer o debate de segunda-feira. Ventura manipula a imagem, mantém o símbolo do JN e põe-se a si a ganhar o debate. A mensagem adjunta à imagem seria cómica se não fosse o símbolo da tragédia embrulhada em notícias falsas: “Aquilo que comentadores/ jornalistas deviam aprender: que o povo português já não se deixa enganar nem manipular!” Pelos vistos, deixa. Entretanto, Ventura também ataca os arrumadores de carros, “que têm de entrar na ordem” (colocando um vídeo de uma discussão com um arrumador), atira contra Marcelo por ter ido à mesquita de Lisboa, garante que “o novo Portugal não se vai ajoelhar perante mais ninguém”, por causa das declarações do Presidente de Angola, João Lourenço, e de Marcelo não ter saído da sala como pretendia Ventura. Pelo menos, já há uma linha de programa: cortar relações com Angola. Por Ana Sá Lopes Destaque, 4 a 7 Marques Mendes Ex-líder do PSD mostrou-se à vontade com jovens universitários em Coimbra Gouveia e Melo Almirante na reserva visitou o Centro de Engenharia em Matosinhos António José Seguro Ex-líder do PS evocou em Aveiro o congresso da oposição democrática de 1969 André Ventura Presidente do Chega tem feito mais campanha nas redes sociais do que na rua Ana Sá Lopes