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INDÚSTRIA AUTOMÓVEL À BEIRA DE UM ATAQUE DE NERVOS

Expresso

2025-11-14 22:09:25

Crise Concorrência chinesa, tarifas de Trump, escassez de semicondutores e custos energéticos elevados fazem resvalar a poderosa indústria automóvel germânica. Despedimentos vêm a seguir á cerca de duas semanas, o Instituto da Economia Alemã, também conhecido por IW (Institut der deutschen Wirtschaft), alertava para o facto de que uma em cada três empresas germânicas “prevê cortar postos de trabalho em 2026”, de acordo com a sondagem de outono realizada por aquele organismo junto dos maiores empresários do país. A situação, segundo o IW, é particularmente grave na indústria, onde 41% dos inquiridos contam com uma redução da força de trabalho no próximo ano, enquanto só um em cada sete se propõe contratar pessoal. Na indústria, é sobre o sector automóvel que se concentram as atenções, numa altura em que é confrontado com a concorrência chinesa (especialmente nos carros elétricos), pelas tarifas aduaneiras impostas por Donald Trump e ainda, internamente, segundo vários analistas, com os elevados custos energéticos e também de mão de obra, a mais cara de toda a União Europeia. No meio deste turbilhão de variáveis económicas adversas, a indústria debate-se ainda com o problema da escassez de semicondutores, essenciais na produção de automóveis (cada veículo pode necessitar de cerca de dois mil, ou até mais, nos modelos de luxo), para além da extrema dependência, sobretudo da China, das matérias-primas básicas, em especial das chamadas terras raras, mas também do lítio, do níquel e do cobalto, componentes de base para as baterias dos carros elétricos. Marcas alemãs em queda A fragilidade do sector é tal que, por um lado, se vê obrigado a investir dezenas de milhares de milhões de euros na preparação das suas unidades fabris para a produção de automóveis elétricos até porque a Comissão Europeia continua a manter 2035 como data-limite para a proibição da venda de carros com motores de combustão interna e, por outro, debate-se com um mercado que está a demorar a aderir precisamente aos carros elétricos, especialmente devido aos elevados preços, apenas batidos pelos concorrentes chineses. Perante todas estas condicionantes, os resultados das principais marcas do sector apresentam quebras sucessivas (Audi,-14,9% até setembro; Volkswagen,-53%, no mesmo período; Mercedes Benz,-50,3%; Porsche,-36%, e BMW, a menos afetada,-6,8%), sendo que muitas delas continuam a falar na necessidade de despedimentos e de encerramento de fábricas, estimando-se mesmo que até 2030 o sector possa perder mais de 100 mil postos de trabalho. Uma das fortes condicionantes que tem afetado praticamente todas as grandes construtoras automóveis alemãs é a falta de semicondutores no mercado, especialmente sentida a partir de meados de outubro. Tudo isto acontece porque a China boicotou temporariamente a venda daquele tipo de componentes, o que deixou em alerta todas as construtoras automóveis europeias, mas em especial o grupo Volkswagen, dado que, segundo algumas fontes, era um dos menos precavidos nesse domínio. O gigante automóvel alemão (o segundo à escala global, a seguir à japonesa Toyota) estremeceu, mas foi sempre garantindo que tinha s stock de semicondutores pelo menos para mais duas semanas. Há quem diga, no meio automobilístico, que algumas marcas do grupo estão a ficar aflitas com o cenário de paragem temporária de certas fábricas, mas, pelo que O Expresso apurou, a unidade da Volkswagen Autoeuropa, em Palmela, não deverá ser afetada. Num cenário extremo de escassez de semicondutores, a fábrica de Palmela seria uma das últimas a sentir os efeitos dessa falha pelo facto de ali ter começado precisamente agora a ser produzido o renovado Volkswagen T-Roc, um dos modelos mais populares da marca germânica. O otimismo reina na Autoeuropa, e para este ano, apesar da ameaça de escassez de semicondutores e de todo o processo da mudança de visual operada no Volkswagen T-Roc, deverá ser ligeiramente ultrapassada a produção de 2024, podendo ser atingidas as 240 mil unidades. Componentes a sofrer” Num cenário mais sombrio, até setembro as exportações da indústria portuguesa de componentes para automóveis caíram 3,7%, para EUR8,9 mil milhões, e a Alemanha “contribuiu decididamente para esta queda”, observa José Couto, presidente da AFIA , Associação de Fabricantes para a Indústria Automóvel. “o peso das marcas alemãs na indústria automóvel europeia é grande e é importante para nós. Não há como não sofrer em Portugal (com os problemas que atravessam)”, diz José Couto, atento à queda de 10,9% das exportações para o mercado alemão e também ao “impacto indireto dos problemas do sector na Alemanha por via das quebras em clientes noutros países que depois colocam lá os seus produtos”. “Se a Alemanha tem uma quebra nas exportações para OS Estados Unidos da América e para a China, todos os fornecedores sentem isso”, sublinha o dirigente associativo, preocupado com a procura crescente de marcas chinesas na Europa (mais 91% no primeiro semestre), quando a compra de automóveis no mercado europeu ainda está 22% abaixo de 2019 (antes da pandemia). E verdade que as empresas portuguesas de componentes estão a ganhar espaço em países como a Roménia (+30,8%), Marrocos (+27,6%) ou Turquia (+17,6%), mas a Alemanha responde sozinha por um em cada cinco euros exportados. EXPORTAçOES Metalurgia à espera de ano recorde As exportações da indústria metalúrgica em setembro somaram EUR2, 18 mil milhões, o suficiente para a fileira garantir o oitavo melhor registo mensal de sempre, com um crescimento homólogo de 6,7%, e começar a acreditar num ano recorde do Metal Portugal na frente externa. Nos primeiros 9 meses do ano, as vendas do sector ao exterior aumentaram 3,5%, para EUR18,03 mil milhões, com o crescimento em países como a Turquia, Irlanda e Ucrânia a compensar as quebras na Alemanha, EUA e Espanha, segundo a AIMMAP, a associação da indústria metalúrgica e metalomecânica. “E mais uma enorme prova de excelência e resiliência do sector que alcança resultados notáveis perante todas as restrições ao livre comércio que enfrentamos”, comenta o vice-presidente da AIMMAP, Rafael Campos Pereira, convicto de que 2025 terminará acima de 2023, o melhor ano de sempre. Este desempenho, diz, é a melhor prova de que este é um sector merecedor de uma aposta focada, específica e estratégica dos recursos nacionais e europeus”. M.C. LEIA IAUMAVERSâO MAIS DESENVOLVIDA DO ARTIGO EM EXPRESSO.PT FRASE o peso das marcas alemãs na indústria europeia é grande. Não há como não sofrer” José Couto Presidente da AFIA Principais marcas alemãs apresentam quebras sucessivas nas vendas FOTO JENS UETER/GETTYII IMAGES MARGARIDA CARDOSO; VÍTOR ANDRADE