O PÚBLICO FOI ÀS COMPRAS COM UM ÚNICO CRITÉRIO: O PREÇO - COMPRAR MATERIAL ESCOLAR ESTE ANO É ESCOLHER ENTRE UNS LÁPIS DE COR E UMA CUVETE DE FRANGO
2023-09-09 06:00:08

Reportagem Com cadernos no braço esquerdo e um estojo debaixo de olho, Sara Marques mostra-se entusiasmada com o regresso às aulas. “Esta é a minha parte favorita de voltar à escola”, admite. Quando entrou na escola primária, Sara era o tipo de criança que folheava as revistas dos hipermercados em busca dos materiais para o novo ano lectivo. Agora vai para 8.º ano numa escola em Leiria e faz a prospecção de mercado pelo telemóvel. Não foi só isso que mudou, diz a mãe: “Houve alturas em que tínhamos condição para gastar um pouco mais para comprar coisas melhores. Mas este ano é quase escolher entre uns lápis de cor melhores e uma cuvete de bifes de frango”. É que os materiais escolares, tal como muitos dos produtos nas prateleiras dos supermercados, aumentaram de preço. Neste momento, e de acordo com as contas feitas pelo PÚBLICO, uma família com duas crianças em idade escolar e ainda no ensino obrigatório deve esperar um gasto mínimo de entre 150 e 440 euros em material escolar considerado essencial. Com base em listas de materiais escolar disponibilizadas aos encarregados de educação em escolas públicas, fomos às compras para saber quanto é que uma família pode esperar gastar nos produtos essenciais para as aulas. Fizemos este exercício nos quatro anos escolares que estreiam um novo ciclo do ensino obrigatório: o 1.º ano, o 5.º, o 7.º ano e o 10.º anos. O critério foi apenas um: o preço. Entre 6 e 7 de Setembro, pegámos na lista de materiais escolares e, obedecendo meramente às características exigidas pelos professores, fomos à procura da opção mais barata que se praticava entre esses dias. Descobrimos que, na melhor das hipóteses, o tutor de uma criança a entrar para o primeiro ano pode esperar gastar cerca de 90 euros em materiais escolares básicos. Família com dois filhos pode gastar mais de 440EUR Pais cortam na qualidade de produtos para acomodar o aumento do custo de vida A conta a que o PÚBLICO chegou para um estudante no 5.º ano foi inferior e rondou os 75 euros. A descida na conta nal está relacionada com o facto de, ao contrário do que acontecia na lista da escola primária, esta lista para o 5.º ano não desaconselhar aos pais a compra de produtos de determinadas marcas que são mais baratas. A conta volta a aumentar para os 120 euros no 7.º ano. Mas a despesa quase que duplica quando se chega ao ensino secundário. Ao entrar no 10.º, no curso cientíco-humanístico de Ciências e Tecnologia, para os 220 euros. Estão cada vez mais distantes os tempos em que o subsídio de férias podia ser amealhado ou usufruído: agora está destinado ao material escolar dos filhos. “Era assim no tempo dos meus pais, quando eu era criança, e agora voltou-se a essa ginástica”, disse ao PÚBLICO a presidente da Confederação Nacional das Associações de Pais, Mariana Carvalho: “É verdade que algumas famílias estão a ser apoiadas pelas autarquias, mas os materiais de desgaste, como lápis e borrachas, estão com um elevado sobrecusto no preço unitário. Isto tudo em cima do aumento generalizado do custo de vida”. Na Papelaria Americana, uma das mais populares em Leiria, Ana Cristina assume que o fluxo de clientes está mais parado nesta altura do ano do que é normal. Quando o cliente entra pela porta, já tem de fazer escolhas. “Já não se compram mochilas novas todos os anos”, analisa a funcionária da loja em conversa com o PÚBLICO: “Voltou-se a esperar pelo início das aulas para saber se é mesmo preciso comprar o caderno de actividades, por exemplo”. Sem conseguir competir com as campanhas de regresso às aulas nas grandes superfícies, o comércio tradicional encontra espaço no mercado graças aos clientes habituais. Mas Ana Cristina acredita que a aproximação à data oficial do início do ano lectivo vai trazer mais clientes à loja: “A certa altura, os pais não têm outra opção senão comprar, mesmo que venham de lista na mão para cumpri-la à risca”. Nos supermercados e papelarias, de acordo com uma análise do KuantoKusta, houve um aumento de 14% no preço dos produtos em comparação com os valores praticados no ano passado. Em sede de IRS, há pouca margem para recuperar muito desse investimento. “Produtos como ténis [sapatilhas], equipamentos desportivos e mochilas, mesmo colocadas como uma despesa de educação, não são aceites como tal. O mesmo acontece com as canetas e os cadernos, por exemplo”. As facturas relativas aos materiais de desgaste podem ser aceites como despesas de educação pelo sco, mas só se forem adquiridas nas papelarias das escolas. É um sistema que Mariana Carvalho critica porque “acaba por ser mais barato comprar nas grandes superfícies”: “Os pais concentram gastos em Setembro porque vêem a educação dos lhos como um investimento. Mas é cada vez mais difícil acomodar tudo”. Mesmo com o sistema de gratuitidade criado para os manuais escolares, muitos pais estão a optar por comprar os livros para os filhos ora porque o acesso aos vouchers tarda, ora porque os manuais chegam às mãos dos lhos em mau estado. E isso simboliza um acréscimo de gastos que pode chegar às centenas e euros. Os dados de um estudo do Cetelem dizem que os portugueses antevêem gastar uma média de 632 euros no regresso às aulas um aumento de 20% em relação às expectativas do ano passado. Menos de um sexto desse valor refere-se ao material escolar essencial: o restante refere-se a despesas que Lucinda Marques classicou como “invisíveis”, como roupa, calçado novo e material tecnológico. Mais de um quarto (27%) dos encarregados de educação sondados para este estudo admitiram que os gastos com educação são um factor de stress económico no orçamento da família, sobretudo tendo em conta o aumento do custo de vida. É uma realidade para que os professores dizem estar sensibilizados, acredita Filinto Lima, presidente da Associação Nacional de Directores de Agrupamentos e Escolas Públicas. Ao contrário do que acontecia no ano passado, a inação também atingiu os materiais escolares e cada vez menos pais estão disponíveis para abrir os cordões à bolsa e escolher produtos de maior qualidade, obrigando os professores a adaptar as listas de materiais. “Os pais compram menos e com menor qualidade porque não têm outro modo de fazer face às despesas”, sumarizou Filinto Lima. Muitas autarquias têm apostado nessa acção social e têm disponibilizado apoios especícos. A Câmara de Lisboa cede 20 euros para materiais escolares aos alunos do 1.º ciclo que pertencerem aos escalões A e B da Acção Social Escolar; e 25 euros para materiais de desgaste às crianças no pré-escolar. Além disso, disponibiliza chas de apoio para todos os alunos que frequentem o 1.º, 2.º e 3.º ciclos do ensino básico ou prossional público. A Câmara da Guarda também anunciou que iria investir mais de 125 mil euros na atribuição de chas e material escolar aos alunos neste ano lectivo. Entre as outras autarquias que já anunciaram mais medidas para apoiar as famílias na compra de material escolar estão Aveiro, Alcobaça, Almodôvar, Coimbra, Leiria, Pombal, Mondim de Basto, Tomar ou Ponte de Lima, por exemplo. Algumas juntas de freguesia também estão a conceder apoios, independentes das iniciativas das câmaras municipais, como a União de Freguesias de Barreiro de Besteiros e Tourigo, em Tondela. Preço dos materiais escolares em listas do ensino obrigatório Em EUR Material essencial 1.º ano 1 dossiê A4 1 capa de elásticos A4 1 estojo para material de escrita 1 estojo para material de colorir 2 cadernos pautados 1 caderno quadriculado 1 resma de folhas brancas A4 6 lápis grafite n.º 2 2 borrachas brancas 10 micas transparentes 1 afia com depósito 1 bloco de papel Cavalinho A4 1 cartolina (cor à escolha) 1 caixa de lápis de cor 1 caixa de canetas de feltro 1 caixa de lápis de cera 1 tesoura pontas redondas 3 cola-batom 3 cola líquida 1 bloco de cartolinas A4 1 embalagem de papel EVA 1 pasta de modelar branca 1 caixa de aguarelas 2 pincel n.º4 e n.º8 1 régua de 20cm 1 embalagem de plasticina 4,39 1,99 3,99 7,99 1,98 0,99 4,99 4,59 0,89 1,79 1,49 3,59 1,29 2,99 2,59 2,69 2,29 11,37 7,47 1,99 3,39 6,99 3,79 1,99 0,79 1,79 TOTAL 90,09 Em EUR Material essencial 10.º ano TOTAL 220,98 1 fato de treino 2 borrachas brancas 1 mochila sem rodas 1 porta-lápis 1 lápis 1 tubo de cola de stick 1 afia-lápis 2 canetas de escrita azuis 2 canetas de escrita vermelhas 2 canetas de escrita verde 1 régua de 20 cm 6 cadernos de linhas A4 2 caderno quadriculado A4 1 capa de arquivo L40 verde 1 conjunto de separadores 1 bloco de folhas A4 1 resma de folhas A4 1 dicionário Português/Inglês 1 dicionário Ingês/Português 1 dicionário Inglês/Inglês 1 dicionário de Português (novo acordo ortográfico) 1 máquina de calcular gráfica 1 bata branca (laboratório) 1 caderno A5 quadriculado 1 “aristo” 1 lapiseira 1 compasso 1 bloco papel de impressão A3 1 pasta de arquivo A3 49,50 0,89 2,99 3,99 0,79 1,19 0,99 0,59 1,50 1,50 0,79 7,14 2,38 1,99 0,89 1,59 4,99 5,85 5,85 5,93 5,52 129,99 13,95 0,99 2,19 1,39 3,99 12,99 3,99 Fonte: Continente, Note!, Staples, Fnac, Decathlon, Loja Olmar PÚBLICO Listas baseadas nos materiais escolares essenciais pedidos por escolas públicas em Lisboa (1º ano), Vila Nova da Barquinha (5.º e 7.º anos) e Braga (10.º ano). O cálculo foi efectuado com base nos preços mais baratos consultados no hipermercado Continente do LeiriaShopping, na Note! de Leiria, Staples (online), na Fnac de Leiria, na Decathlon de Leiria e na Loja Olmar (online). Quando a escola excluía determinadas marcas, escolheram-se os produtos mais baratos em todas as outras opções. Quando pedia marcas específicas, optou-se pelos produtos mais baratos dentro da sua oferta.