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ABRANTES TEM REDE DE INTERNET MÓVEL NO PAPEL, MAS VELOCIDADE FICA AQUÉM DO PROMETIDO

Público Online

2025-10-08 11:38:04

O problema da cobertura de rede quase só existe em alguns concelhos do interior e ilhas. Mas o prometido está longe do devido. Um artigo da série Posto de Escuta, com base em perguntas dos leitores. Cara leitora, A resposta curta à sua pergunta é relativamente fácil de dar: oficialmente, o problema está quase resolvido. Mas quando olhamos para a experiência real dos utilizadores, a história é bem diferente. Comecemos pelos números oficiais. Para tentarmos perceber a real dimensão do problema, o PÚBLICO recolheu uma base de dados com o melhor sinal disponível em cada um dos quase 99 mil quadrados que os Censos de 2021 dividem o território. Os dados foram recolhidos a partir do portal da ANACOM, que indica, para uma determinada coordenada geográfica, o tipo de rede (2G, 3G, 4G ou 5G) e a velocidade que cada operadora diz oferecer naquele lugar. Os dados são bastante claros: quase 98% do território consegue pelo menos 100 megabits por segundo (Mbps) - velocidade suficiente para ver séries em streaming, fazer videochamadas ou trabalhar remotamente e, claro, também fazer chamadas. Apenas 0,06% da população (cerca de cinco mil pessoas) vive em zonas onde a rede é especialmente fraca, concentradas sobretudo no interior e em zonas fronteiriças. Os concelhos mais afectados são Penamacor, Idanha-a-Nova (ambos no distrito de Castelo Branco) e Calheta (São Jorge, Açores). Na plataforma, Abrantes até surge com uma grande percentagem do seu território coberto por 4G, com quase todo a região a registar uma velocidade de Internet igual ou superior a 30 megabits por segundo. Posto de Escuta Desafiámos os nossos leitores a expor as suas preocupações sobre temas que gostariam de ver abordados nestas eleições autárquicas. Este artigo pertence a essa série. Ver mais artigos Ruído no sinal Os dados da ANACOM baseiam-se no que as operadoras reportam como velocidade máxima teórica - o melhor cenário possível, em condições ideais. Não reflectem a experiência real dos utilizadores. Será difícil obter muito mais sobre a qualidade do sinal para fazer chamadas. Mas, no caso do sinal de Internet, há números que nos podem ajudar a perceber que os dados no portal do regulador e a realidade podem ser diferentes. Para perceber se existia real diferença, o PÚBLICO recorreu aos dados da Ookla, a empresa por trás do Speedtest, um site e app bastante popular para medir a velocidade da Internet. Recorremos aos dados do terceiro trimestre de 2024, o último disponível publicamente, e fomos comparar os milhares de testes em Portugal com o melhor valor registado por uma das quatro operadoras em cada um dos tais 99 mil quadrados. Ainda que seja normal que a velocidade registada seja mais baixa do que a velocidade teórica, os números são bastante díspares. Nas zonas onde o melhor sinal "oferecido" é 5G, com velocidades iguais ou superiores a mil megabits por segundo, a velocidade real mediana fica-se pelos 65,7 Mbps. Significa isto que oito em cada dez utilizadores (82,7%) têm menos de um quarto da melhor velocidade que uma operadora diz conseguir naquele lugar. Apenas 0,3% atingem pelo menos 90% do que é comunicado ao regulador. O padrão repete-se nas zonas classificadas como tendo cobertura 4G e 5G, onde se prometem 300 Mbps: a velocidade real mediana é de 29,7 Mbps e 77,2% dos utilizadores ficam abaixo dos 25% prometidos. Nas áreas apenas com 4G (100 Mbps prometidos), a velocidade real mediana é de 18,4 Mbps. É certo que não podemos fazer uma comparação directa entre números. Não temos forma de saber a operadora de quem fez o teste, é preciso considerar factores como o telemóvel, a meteorologia, a quantidade de telemóveis que estavam ligados naquele momento ou até o facto de os dados deste teste poderem ter algum viés - por exemplo, se muita gente faz o teste apenas quando regista valores de velocidade mais baixos. Aumentar Na prática, isto significa que mesmo em zonas oficialmente classificadas como tendo "boa cobertura", é provável que tenha dificuldades em fazer videochamadas estáveis ou aceder a serviços que exigem velocidades elevadas - como, aliás, se viu durante a pandemia, quando o ensino à distância expôs muitas destas fragilidades. E quanto às medidas? Há várias iniciativas em curso, embora com ritmos diferentes. Aquando do leilão para a atribuição das frequências 5G, a ANACOM impôs obrigações específicas às então três principais operadoras. As operadoras ficaram obrigadas a assegurar cobertura de banda larga móvel (com velocidades mínimas de 30 Mbps) em 1068 freguesias - 480 inicialmente, às quais se juntaram 588 adicionais. Cada operadora deve cobrir cerca de 196 destas freguesias, garantindo serviço a 75% da população de cada uma. Até ao final de 2025, a meta sobe para 90% de cobertura populacional nas freguesias de baixa densidade e nas regiões autónomas. Os números mais recentes, do terceiro trimestre de 2024, mostram que o 5G já chegou a todos os concelhos do país e a 72% das freguesias. No entanto, nas freguesias de baixa densidade apenas 66% têm estações 5G instaladas, deixando 605 freguesias (34% do total) ainda sem esta tecnologia. O ritmo de investimento das operadoras é desigual: durante o primeiro trimestre de 2024, a NOS instalou 470 novas estações 5G e a Vodafone 583, enquanto a MEO instalou apenas 19. No caso específico de Abrantes, os problemas existem. Em Abril deste ano, residentes de Entre Serras e Lercas, na freguesia de Mouriscas, apresentaram uma petição na Assembleia Municipal exigindo melhores condições de acesso digital, tanto em rede móvel como em fibra óptica. Em Bemposta, 135 cidadãos fizeram o mesmo, pedindo a instalação urgente de fibra em toda a freguesia. A câmara municipal respondeu que os serviços da divisão digital estão a avaliar soluções, e já realizaram visitas técnicas aos locais afectados. Para responder à sua pergunta, o PÚBLICO questionou os candidatos à Câmara Municipal de Abrantes sobre as medidas previstas para resolver o problema. O PS, actualmente na liderança da autarquia, destaca um projecto municipal de amplificação de sinal 4G em colaboração com as juntas de freguesia e uma negociação com a DSTelecom - empresa que venceu o concurso da ANACOM para eliminar zonas brancas - para priorizar Bemposta e São Facundo. A ALTERNATIVAcom promete uma "negociação muito forte" com as operadoras, focando na atractividade territorial. A AD reconhece "fragilidades no concelho" e propõe "assegurar o acesso à Internet e à rede móvel em todo o concelho", envolvendo as operadoras no processo. A CDU considera que a resolução do problema não compete à câmara, mas sim ao Governo, propondo coordenação institucional com a ANACOM. O Chega admite não ter medidas no programa eleitoral. No fundo, a resposta à sua pergunta é complexa: oficialmente o problema está a caminho de ser resolvido através de obrigações regulatórias e investimento público, mas os prazos são longos e, como vimos pelos dados da Ookla, mesmo nas zonas com cobertura oficial, a experiência real dos utilizadores continua a ficar aquém do prometido. Espero, no entanto, que os números ajudem. tp.ocilbup@sorrab.iur Rui Barros